Tropas do Brasil fazem última patrulha em Cité Sol

 

Tropas do Brasil fazem última patrulha em Cité Soleil, maior e mais violenta favela do Haiti

Comunidade foi pacificada por operações comandadas pelo Brasil. Moradores dizem que segurança foi a única coisa que mudou.

 

Os militares brasileiros fizeram na manhã desta quarta-feira (30) a última patrulha em Cité Soleil, a maior comunidade de Porto Príncipe, a capital do Haiti, considerada até 2008 pela ONU como a mais violenta do país. Cité Soleil, com cerca de 300 mil moradores, foi pacificada por uma série de operações internacionais, comandadas pelo Brasil, entre dezembro de 2006 e maio de 2007.

Em junho deste ano, o Brasil entregou a sua base na favela para a Polícia Nacional Haitiana (PNH), que assumiu o controle da segurança. Isso porque o Brasil finaliza as ações na missão de paz nesta quinta-feira, após a ONU ter decidido encerrar a operação internacional.

Nas ruas de Cité Soleil, os moradores afirmaram à reportagem do G1 que a única coisa que mudou nos últimos 13 anos em que as tropas brasileiras estiveram na favela foi a segurança. Nas ruas, há enormes quantidades de lixo amontoadas, que são reviradas por porcos e aves, à procura de comida, e por crianças, que correm nuas em meio à sujeira.

O diretor da escola Soleil der Garten, Jeune Marcelon, de 50 anos, diz que o governo suspendeu o apoio a um programa educacional na favela há 10 meses e agora são os parentes das 150 crianças que lá estudam que pagam cerca de 2 mil gourdes por mês (cerca de US$ 34), que servem para arcar com os custos de professores.

"Na época de 2004 a 2006, 2007, aqui tinha muito tiroteio, todos os dias tinham corpos e tiros em Cité Soleil. Agora a segurança melhorou, mas aqui ainda falta tudo, há doenças no meio do lixo com as crianças e o único hospital é longe e superlotado. Nada mudou aqui nos últimos anos nisso", disse Marcelon.

O diretor soube ouvindo rádio que a missão de paz da ONU no Haiti (Minustah) está deixando o país. "Eu não sei o que vai acontecer agora conosco. Vamos esperar, porque a Polícia Haitiana não patrulha as ruas da favela, só ficam na base deles", afirmou.

A reportagem do G1 viu pelo menos três bases da PNH em Cité Soleil, uma delas na entrada, mas, ao contrário das regiões nobres da capital haitiana, como Pétion Ville e Delmas, não encontrou policiais nos becos da comunidade.

Os moradores relatam que até o momento não há um grupo armado comandando a região, apesar de reportes da inteligência relatarem tiroteios em julho entre a polícia haitiana e suspeitos. Contudo, os habitantes de Cité Soleil acreditam que, após a saída das tropas internacionais, "alguma coisa pode acontecer", segundo o desempregado Ravil Loubert, que mora em uma região portuária da comunidade.

 "Eu sei disso, que algo pode acontecer, porque moro aqui. Muitas coisas melhoraram, mas a PNH não caminha nos becos, não vigia aqui, só passam de carro", afirmou ele, que sonha em viajar para o Brasil em novembro para encontrar o irmão, que migrou pra a Bahia após o terremoto de 2010, que deixou mais de 300 mil mortos.
 "As coisas aqui são muito caras. Eu vendo comida (uma sopa) na rua para sustentar 5 filhos. Para mim, nada mudou", diz a cozinheira 
 
Lanka Legran, de 45 anos, que disse que não sabia que a ONU estava deixando o país.
Já para o desempregado Jean Bernard, de 50 anos, as tropas do Brasil vão fazer falta em Cité Soleil. "Eles sempre passavam aqui cumprimentando, ajudavam, perguntavam as coisas. Eu acho que a violência agora vai retornar como era antes e os bandidos vão voltar", acredita ele.
 
A última patrulha brasileira em Cité Soleil ocorreu em carros e motos e durou cerca de duas horas, contando com cerca de 35 militares. Para o comandante do atual batalhão brasileiro no Haiti, coronel Alexandre Cantanhede, "o sentimento é de dever cumprido".

"Nós fizemos nossa parte, ajudamos a proporcionar um ambiente seguro e estável ao Haiti. Encerramos agora nossas atividades, o governo e a polícia irão atuar para manter o controle", afirmou o oficial, que é comandante do 26º batalhao do Brasil na missão de paz, atualmente com cerca de 850 homens.

Apesar da grande quantidade de lixo e pobreza nas ruas, a reportagem do G1 percebeu que este problema diminui em relação a 2013 em algumas partes da favela. Em outras áreas porém, valas e terrenos baldios amontoam toneladas de sujeira comparadas à situação de 2007, quando o Brasil tinha acabado de obter o controle da favela.


| Mais
Comentários
Comente
Nome:

Email:
não será publicado
Comentário:

Chave:
Jornal das Embaixadas © Todos Direitos Reservados